De Valbom para o mundo

A momondo desafiou-me a recordar o momento em que percebi que tinha alma de viajante, ora bem, esse tema é algo complexo e correndo o risco de fugir ao tópico do desafio, aqui vai o meu relato.

Sou de Valbom, uma pequena cidade situada entre Gondomar e o Porto. Aqui tudo se sabe, tudo o que se faz é um escândalo, temos gangues, bairros sociais e um ótimo passadiço à beira-rio. A nossa escola secundária está classificada entre as piores do país e o último banco disponível fechou há cerca de um mês. Ainda assim acho que é uma ótima terra para se viver.

Primeira viagem a solo – Atenas, Grécia, agosto de 2014.

Tal como a maioria em Valbom, a minha família é de origens humildes, o lado do meu pai tinha um negócio de cilindros muito rentável mas o pouco dinheiro que o meu avô tinha ao falecer, ficou para a senhora que o iludiu num romance de terceira idade, mas até que foi justo uma vez que foi ela que tomou conta dele nos últimos momentos, quando o Alzheimer estava em fase avançada.

A minha mãe começou a trabalhar aos 8 anos, assim como os 5 irmãos, que sempre entregaram todo o dinheiro à minha avó. Não me perguntem o que ela fez com o dinheiro do marido e dos 6 filhos, ela também não sabe. Neste momento está a viver acompanhada depois de ter tido vários episódios de demência e apenas três dos filhos suportam as despesas, porque os restantes não querem saber.

À caça de castelos na Alemanha – fevereiro de 2016.

O meu pai trabalha numa fábrica de metais e também dá uns toques como picheleiro. A minha mãe faz serviços de limpeza e é obcecada com isso. E estes dois são o meu maior orgulho, porque numa terra limitada e manchada com má fama, fizeram tudo para que eu tivesse acesso às oportunidades que eles não tiveram. Então a minha mãe é capaz de mover montanhas para me ver sorrir e é simplesmente a melhor pessoa do mundo, mas isto é um caso sério, ela acha-se Madre Teresa de Calcutá e só não ajuda se não puder mesmo, para além de que é master no Candy Crush e atenção que há menos de um ano não sabia mexer num smartphone. Gosto do ar de orgulho com que os meus pais dizem aos amigos que sou licenciado e trabalho num hospital.

Ao colo da minha heroína e na companhia da prima-maravilha, que me acompanha em muitas das minhas aventuras.

Desde pequeno que soube que era diferente, não de uma forma especial ou melhor que os outros, apenas diferente. Odeio o convencional e por vezes sinto uma pequena adrenalina deliciosa quando as coisas correm mal, mas calma, não sou nenhum sádico, apenas gosto de sair da minha zona de conforto, de chegar a Marrocos e ter o próximo voo cancelado ou de ter em simultâneo o trabalho de duas pessoas nas minhas mãos. Adoro não saber onde estou, de me desafiar por destinos pouco convencionais e de flutuar sozinho no mar Egeu.

A minha ideia de vida perfeita está longe de ser casar, ter filhos e uma boa casa. Contento-me com um T1 confortável que me deixe orçamento suficiente para fazer do mundo a minha verdadeira casa.

Primeira viagem organizada por mim – Roma, Itália, janeiro de 2011.

A primeira vez que andei de avião foi aos 10 anos, no glorioso programa “Gondomar Sabe Voar”, em que a câmara municipal oferecia uma viagem de avião até Lisboa aos finalista do 4º ano do ensino básico, com visita ao jardim zoológico. Depois disso só voltou a acontecer aos 17 anos, também pela escola, no âmbito do projeto Comenius da União Europeia, em que vivi uma semana numa família de acolhimento em San Lorenzo del Escorial, nos arredores de Madrid. Penso que foi neste preciso momento que percebi o que me fazia sentir vivo.

Logo no ano seguinte organizei a minha primeira viagem e, com uns amigos parti para Roma. Nunca mais parei. De uma forma ou de outra, todos os anos anseio descobrir novos destinos, absorver a cultura de cada local, conhecer o povo e abraçar diferentes realidades. Adoro ficar moreno em novembro mas também amo sentir o relevo das pedras da Acrópole de Atenas, de imaginar o Coliseu de Roma cheio, de ouvir o Big Ben por entre a chuva em Londres, de me perder na medina de Marraquexe, de ler um livro em pleno Central Park, descalço e deitado na relva, de andar a cavalo na selva da República Dominicana, de mergulhar junto aos corais do Mar Vermelho, da emoção de ver a magnitude das Grandes Pirâmides ou de presenciar o nascer do sol em Chott el Djerid, na Tunísia, gosto de ouvir o arranque do motor de avião e desfrutar do voo com um copo de vinho branco na mão. Sobretudo, gosto de criar memórias.

A contemplar o belo por-do-sol de Samaná, na República Dominica – novembro de 2018.

Viajar é importante não para poder dizer que já estive em Nova Iorque ou pelas fotos do Instagram mas precisamente por causa destas memórias. Quando formos velhinhos e olharmos para trás, não vamos dar importância à moradia V4 isolada que passamos 50 anos a pagar.

Provavelmente, tal como os meus avós, não vou deixar nenhuma herança, mas vou partir com os meus sonhos vividos, com perfeita noção do mundo a que pertenço e com uma casa cheia de tesouros preciosos, como a areia do Saara que tenho na casa-de-banho, o coral das Caraíbas, o papiro que brilha no escuro e os ímans do frigorífico.

Pronto(a) para criares memórias? Prepara a tua próxima aventura aqui.

Realizei o sonho de ver as Grandes Pirâmides de Gizé – Egito, abril de 2019.

Sabes aquela poupança que estás a guardar para um eventual desastre que nunca vai acontecer? O meu conselho é criares memórias com isso. O essencial é vivermos a vida ao máximo e fazermos aquilo que realmente gostamos. No final, não importa de onde viemos ou as limitações que temos, o fulcral é nunca desistirmos dos nossos sonhos e trabalharmos continuamente para os alcançar. Sinto-me realmente sortudo por poder inspirar pessoas a serem conscientes do incrível mundo que as rodeia e de certa forma ajudá-las a concretizar os seus sonhos e, claro, ouvir a minha sobrinha de 11 anos dizer que quer viajar comigo e que nunca me vai perdoar por não a ter levado ao Egito.

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